Não sem lastimar, reconhecemos a grande lacuna existente em publicações na área da gravura, em especial no Brasil. Este livro contribui, de sua parte, para minimizar esta ausência, ao trazer uma valiosa reflexão sobre este gênero artístico, em especial a partir de uma experiência vivida de forma intensa pela autora, que, antes de tudo, é uma artista da área da gravura.


Todos os dados de problematização e análise contidos na publicação são frutos do contato direto com a matéria da gravura e tramados em meio à experiência acadêmica. Este livro de Lurdi Blauth é o resultado de uma tese de doutorado, desenvolvida e defendida no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS, na área de Poéticas Visuais. Com isso, ela soube aliar os estudos sistematizados teóricos e práticos necessários em um curso de acadêmico na área da arte. Neste nível mais adensado, integrou a vivacidade da experiência do fazer arte, contando com as facetas inerentes do acaso, do programado, do ensaio e erro, das surpresas irradiadas do próprio processo do fazer, mais ainda, dos resultados muitas vezes inesperados que se mostraram no decorrer do desenvolvimento do ato criativo. Suas incursões, por exemplo, nos estudos dos cheios e vazios a partir de consultas a pensamentos de autores chineses ou dos que pensaram as obras daquela cultura, como François Cheng ou George Rowley, tiveram repercussão em sua prática da gravura, assumindo no entanto, neste estudo, uma versão muito atual. O mesmo se deu em relação às ideias de Gaston  Bachelard, nas suas poéticas reflexões sobre A dialética da duração, assim como em Fragmentos de uma poética do fogo. Essas consultas completam-se em suas articulações com o pensamento de Deleuze, ao estudar este as relações entre a diferença e a repetição no ato de gravar, fatos de grande repercussão na construção poética da gravadora. Os grafismos e as marcas ocasionadas pela queima repetem-se. Porém, a cada nova ação geram-se transformações e delas eclodem diferenças. Lembra Deleuze que pode-se sempre “representar” a repetição como uma semelhança extrema, mas ao se passar gradativamente de uma coisa a outra é possível mostrar-se diferença de natureza entre duas coisas¹.  Nesse sentido, a obra de gravura de Lurdi enriquece a apreensão do observador, uma vez que cada gesto, mesmo repetitivo no ato de gravar, traz à luz novas intervenções, tornando cada imagem uma imagem única.


Este fato, decorrente da experiência do próprio processo de trabalho, levanta ricas interrogações sobre a natureza e a matéria da gravura - faz transitar-se do fogo à queima, do sílex à parafina. Com este sentido de investigação permanente, ela coloca em xeque os materiais tradicionais desta área de produção e estende a gravura a outros espaços de sua concretização. Por esses caminhos, a autora propicia elementos para se repensar a índole da gravura e sua aspiração contemporânea.


O livro contempla assim as profundas relações entre um pensamento artístico relativo a esta especificidade artística, gerada no âmago do fazer, mas ampliada em conceitos operacionais que se dispõem a serem aprofundados em sua extensão pública, não apenas na da gravura em si, mas na de todos os que pensam a arte contemporânea; em especial, a partir dos materiais e dos procedimentos identificados na própria origem geográfica e cultural de sua germinação.

¹ Cf. Gilles Deleuze. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
 
Mônica Zielinsky
Julho de 2011